Aumento desproporcional do uso de telas e declínio de hábitos literários despertam preocupação em educadores e instituições de ensino
Quanto tempo seu filho passa diante de uma tela todos os dias? E quanto tempo dedica à leitura por prazer? Essa comparação, cada vez mais presente nas conversas entre pais e educadores, revela um cenário preocupante: enquanto o uso de dispositivos digitais cresce de forma acelerada, o hábito literário perde espaço na rotina dos jovens. Dados recentes da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024) mostram que mais da metade da população brasileira (53%) se considera não leitora e apenas uma em cada cinco pessoas afirma ler livros no tempo livre.
Diante desse contexto, o Grupo Positivo decidiu transformar o incentivo à leitura em um de seus pilares estratégicos para 2026, ampliando o projeto que teve início no ano anterior e trouxe resultados mensuráveis, segundo pesquisa da instituição. O novo posicionamento do grupo envolve a ampliação das ações em mais de 200 escolas e comunidades em todo o país. A iniciativa envolve investimentos em bibliotecas, formação de professores, criação de espaços literários e programas de mediação da leitura.
“Queremos recolocar a leitura literária no centro da vida das pessoas. Acreditamos que o acesso ao livro precisa ser cotidiano e afetivo, especialmente nas comunidades mais vulneráveis”, destaca a doutora em Educação e pesquisadora do Instituto Positivo, Maíra Weber. Segundo ela, a estratégia combina investimento social, engajamento e atuação territorial. “Estamos estruturando uma política permanente de fomento à leitura. Trata-se da construção de uma rede de incentivo que envolva colaboradores e comunidades”, relata.
A seguir, professores e especialistas listam dez motivos que explicam por que incentivar a leitura é, hoje, uma decisão estratégica para o presente e o futuro das novas gerações.
1.Desenvolve a empatia e melhora os relacionamentos
A leitura literária coloca o leitor dentro da mente e do coração de outras pessoas — reais ou imaginárias. Uma pesquisa publicada em 2013 na revista Science mostrou que quem lê ficção literária, especialmente obras com personagens complexos e dilemas morais, melhora o entendimento das emoções e motivações humanas. De acordo com a professora e assessora pedagógica de Redação no Centro de Inovação Pedagógica, Pesquisa e Desenvolvimento (CIPP) dos colégios da Rede Positivo, Candice Almeida, isso acontece porque a literatura nos faz interpretar ambiguidades, imaginar o que os personagens pensam, questionar comportamentos e nos colocar em seus lugares: um treinamento de empatia. “Ao acompanhar, por exemplo, as dúvidas de Bento Santiago em Dom Casmurro e tentar decidir se Capitu o traiu ou não, o leitor pratica o mesmo tipo de leitura psicológica que usamos na vida real para compreender as pessoas ao nosso redor”, exemplifica.
2.Reduz a ansiedade e fortalece a saúde emocional
O hábito de leitura atua como um poderoso aliado contra a ansiedade e a depressão, reduzindo o estresse fisiológico em até 68% em apenas seis minutos, conforme estudo da University of Sussex (2009). “Isso porque, diferentemente da hiperestimulação digital — associada a déficits de atenção e à dopamina rápida das telas —, a leitura promove aprofundamento cognitivo, foco profundo e interrupção de pensamentos negativos, ativando redes de autorregulação emocional”, explica a coordenadora da Educação Inclusiva e Orientação Educacional no Centro de Inovação Pedagógica, Pesquisa e Desenvolvimento (CIPP) dos colégios da Rede Positivo, Michelle Cristina Norberto Martins.
Um estudo publicado no Clinical Psychology Review afirma que a biblioterapia reduz sintomas depressivos de forma comparável às intervenções leves (não medicamentosas), enquanto estudos do National Literacy Trust mostram que jovens leitores frequentes exibem maior autoestima, menor isolamento e bem-estar psicológico superior, oferecendo modelos de enfrentamento, vocabulário emocional e senso de significado contra a fragmentação da era digital.
3.Melhora o desempenho escolar em todas as disciplinas
Para quem pensa que o hábito literário beneficia apenas o desempenho em linguagens e redação, os relatórios do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) e da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), revelam uma conexão profunda entre proficiência em leitura e o desempenho em ciências e matemática, mostrando que a leitura não só favorece o domínio de linguagens, mas também aplicam esse repertório cognitivo em disciplinas aparentemente distantes.
Um levantamento do Grupo Positivo feito com mais de 8 mil estudantes, além de 1.036 famílias e 443 colaboradores em 2025, revelou um avanço consistente nos hábitos de leitura. Entre os estudantes, a média mensal chegou a mais de 2 livros por estudante nos anos finais e Ensino Médio, enquanto entre as famílias, 46% das crianças têm contato diário com leitura e 81% leem ao menos semanalmente. Entre os colaboradores, 85% afirmam ler ao menos semanalmente, indicando uma forte cultura leitora em toda a comunidade escolar. Os dados apontam que o aumento do tempo dedicado à leitura vem consolidando o hábito entre estudantes e fortalecendo o vínculo com a aprendizagem.
De acordo com o professor de Matemática do Colégio Semeador, Cristian Loch, a compreensão leitora é um dos fatores que mais influenciam o avanço na resolução de problemas, sobretudo entre alunos com desempenho inicial mais baixo. “Isso acontece porque interpretar corretamente um enunciado é o primeiro passo para encontrar a solução. Quando a leitura é bem desenvolvida, o estudante consegue identificar dados relevantes, compreender relações lógicas e escolher estratégias adequadas de raciocínio”, explica.
Em avaliações como o PISA 2022, quedas globais em leitura (-10 pontos na média da OCDE) se refletiram em perdas semelhantes em matemática (-14 pontos) e estagnação em ciências, reforçando que investir em leitura é uma estratégia acessível para elevar o patamar geral da educação no país.
4.Amplia o vocabulário e a capacidade de expressão
Crianças que leem com frequência têm repertório linguístico mais amplo. Isso impacta diretamente a clareza ao falar, escrever e argumentar. “Para muitos pais, a dificuldade de comunicação dos filhos é motivo de preocupação, e a leitura é uma das formas mais eficazes de enriquecer a linguagem de forma natural e progressiva”, aponta Maíra Weber.
5.Estimula o diálogo entre gerações
Estudos do CIPP dos colégios do Grupo Positivo mostram que quando uma criança ou adolescente cria o hábito de ler, é frequente que o costume se espalhe pela família. “É contagioso”, afirma a professora Candice. Além disso, segundo a educadora, as conversas sobre livros aproximam pais e filhos, criando espaços de troca entre as gerações em um cotidiano muitas vezes dominado por telas e agendas apertadas.
6.Combate à desinformação
Um estudo publicado no Thinking & Reasoning demonstra que leitores habituais de ficção literária apresentam maior capacidade de detectar inconsistências lógicas e falácias em argumentos, graças ao treino constante de questionar narradores não confiáveis — como o ambíguo Bentinho em Dom Casmurro, de Machado de Assis, em que o leitor deve analisar pistas contextuais para formar juízos independentes. “Esse exercício fortalece o discernimento diante de fake news, discursos extremistas e manipulações digitais”, assinala o professor de Literatura e de Arte do Curso e Colégio Positivo, Rodrigo Wieler.
Ao analisar neuroimagens, uma pesquisa da Universidade de Stanford (2018) mostra que a narração na literatura ativa regiões cerebrais que fortalecem a habilidade de avaliar perspectivas múltiplas e de resistir à manipulação ideológica. “Assim, quem cultiva o hábito literário não apenas interpreta símbolos e dilemas morais complexos, mas constrói uma mente afiada para navegar realidades ambíguas com discernimento e autonomia”, complementa Rodrigo.
7.Reduz a agressividade e combate o bullying
Para a orientadora educacional dos Anos Finais do Colégio Positivo – Londrina, Renata Moraes, o estímulo à prática literária pode enfrentar diretamente problemas atuais, como o bullying e o cyberbullying, que afetam um em cada sete jovens entre 10 e 19 anos, segundo relatórios recentes da Universidade Erasmus de Roterdã. “A leitura de narrativas que humanizam diferentes personagens diminui atitudes hostis e preconceituosas. Ao ampliar a compreensão do ‘outro’, o jovem tende a agir com mais respeito e menos impulsividade, inclusive no ambiente digital”, esclarece.
Um estudo publicado em 2012 no Journal of Applied Social Psychology demonstrou que obras literárias ficcionais reduzem atitudes agressivas ao incentivar a identificação com as vítimas. Já o relatório Countering Online Hate Speech, da Unesco, destaca o letramento crítico como proteção contra a radicalização e o discurso de ódio online. “Ao introduzir ambiguidade moral e humanizar grupos diversos, como em romances que exploram dilemas éticos, a literatura é como um antídoto aos estereótipos e a polarização, fomentando a convivência pacífica desde a infância”, completa Renata.
8.Fortalece a memória e a concentração, reduzindo riscos de demências
A leitura atua como um verdadeiro treino para a memória, pois exige que o cérebro mantenha várias peças de informação ativas simultaneamente e as organize de forma coerente. “Na ficção literária, o leitor precisa lembrar quem são os personagens, o que aconteceu em capítulos anteriores, quais conflitos estão em jogo e como tudo isso se conecta à medida que a história avança”, detalha a médica pediatra do Departamento de Saúde Escolar dos colégios da Rede Positivo, Andrea Dambroski.
Esse esforço constante de guardar, atualizar e relacionar informações mobiliza a chamada memória de trabalho: sistema mental que permite manipular dados no meio do pensamento, na tomada de decisões ou na compreensão de texto. “É como comparar o elevador com a escada: o segundo exige esforço ativo, o que fortalece a ‘musculatura’ da memória e constrói uma reserva cognitiva que retarda o impacto de patologias como o Alzheimer”, esclarece Andrea. “Ler com frequência, mesmo que poucos minutos ao dia, funciona como uma espécie de academia para o cérebro, ajudando a preservar a agilidade mental e a clareza de raciocínio”, complementa.
9.Constrói autonomia intelectual e aumenta a segurança digital
Segundo a coordenadora do Ensino Médio do Vila Olímpia Bilingual School, Kamyla Garcia Leão, quem lê aprende a aprender. “A leitura desenvolve disciplina mental, capacidade de estudo independente e organização do pensamento. Para pais preocupados com falta de foco ou dependência excessiva de estímulos externos, o livro é um exercício diário de autonomia”, recomenda.
Com habilidades para avaliar fontes, detectar vieses e questionar narrativas manipuladoras, esses jovens também se tornam menos vulneráveis a conteúdos nocivos, promovendo decisões mais conscientes em um ambiente digital saturado.
10.Forma cidadãos mais conscientes e participativos
Relatórios do Instituto Pró-Livro (2025) reforçam que leitores habituais apresentam maior engajamento cívico e criatividade em soluções coletivas. “O contato com textos diversos promove reflexão, mudança social e inserção ética, transformando alunos em cidadãos capazes de escolher melhor seus governantes, criticar desigualdades e lutar por justiça”, expressa o doutor em Educação Histórica e professor no Curso Positivo, Daniel Medeiros.
Segundo ele, ao incentivar debates saudáveis, reflexão sobre consequências e análise de perspectivas múltiplas, os jovens ganham capacidade de transformar preocupações como corrupção e discriminação em ações efetivas para um futuro mais justo e ético.





Deixe um comentário