Iniciativas aproximam o tema da prática e incentivam decisões mais conscientes desde cedo
No Brasil, a relação com o dinheiro é marcada pelo despreparo: 80,2% das famílias estão endividadas, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), e 47% dos jovens da Geração Z não controlam suas finanças, conforme a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil).
Para o especialista em Comportamento do Consumidor, Sérgio Czajkowski Júnior, essa insegurança reflete a falta de aprendizado prático. “Educação financeira e planejamento orçamentário não podem ser pensados de forma individualizada. Esse é um processo que envolve tanto a escola quanto a família. Quando o diálogo não acontece, o jovem cresce sem referências claras sobre como lidar com o dinheiro no dia a dia”, explica.
É nesse cenário que surgem iniciativas educacionais que buscam preencher essa lacuna, alinhadas às diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e às recomendações da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Curso gratuito aproxima jovens do universo financeiro
A avaliação dos hábitos da Geração Z levantou preocupações entre os próprios jovens, que passaram a buscar formas de mudar esse cenário dentro da própria realidade. “Os estudantes perceberam que a educação financeira estava carente na grade curricular do Brasil como um todo. Viram a importância disso e propuseram uma mudança por meio de projetos escolares”, afirma a coordenadora do Programa de Diploma do Bacharelado Internacional (IB) do Positivo International School, Juliana Lazari.
Criado por estudantes de 13 e 14 anos, do Positivo International School, em Curitiba (PR), o projeto Fundamentos do Dinheiro nasceu em 2021 como um trabalho de conclusão do Ensino Fundamental e rapidamente se transformou em uma ação de impacto nacional. Idealizada por Daniel Thomé, Arthur Spada e Matheus Tebet, a proposta surgiu a partir da percepção de que muitos jovens — e até adultos — não dominam conceitos básicos sobre dinheiro e, por isso, têm dificuldade em planejar o próprio futuro financeiro. O curso, gratuito e estruturado em cinco módulos, abrange os fundamentos das finanças, dos juros aos investimentos, com linguagem simples, exemplos do cotidiano e abordagem prática. Para Louise Evangelista, integrante da equipe, a lacuna no ensino era clara: “A gente percebia que muitas pessoas não sabiam lidar com dinheiro porque nunca aprenderam isso de forma prática. Quando o tema aparece na escola, é muito teórico e distante da realidade”.
Com o apoio da internet, o que começou com aulas presenciais, atendendo cerca de 60 alunos em escolas, instituições e organizações sociais, rapidamente ganhou escala. Hoje, o projeto reúne uma equipe ampla, com a participação de estudantes do Ensino Médio, e oferece conteúdos tanto em formato digital quanto em aulas presenciais realizadas em diversas cidades. Entre as instituições atendidas estão o Cursinho Solidário, o Colégio Lysimaco Ferreira da Costa e a ONG De Mãos Unidas, em Curitiba, além do Colégio Estadual Lamenha Pequena, em Almirante Tamandaré (PR).
Por meio da plataforma on-line, o curso já alcançou mais de 45 mil alunos em todo o Brasil. Uma das primeiras implementações presenciais foi realizada em colégios da Rede Positivo, com apoio do Instituto Positivo, que contribuiu para a articulação de parcerias e a ampliação do alcance da iniciativa. Os resultados são expressivos: 97,4% dos participantes afirmam compreender a maior parte dos conteúdos, enquanto 98% consideram o aprendizado útil para a vida prática. O Net Promoter Score (NPS) do projeto é de 92. “A ideia é trazer a educação financeira de forma simples, objetiva e conectada com o dia a dia, para que os alunos consigam entender como o dinheiro funciona na prática”, explica Louise.
Além do crescimento em escala, o grupo já trabalha em uma nova frente voltada para crianças de 7 a 9 anos, com o objetivo de alcançar diferentes faixas etárias. “Pelos feedbacks, percebemos que os alunos terminam o curso mais seguros para tomar decisões e com uma visão mais clara sobre como organizar a vida financeira. Isso faz muita diferença para o futuro deles”, completa Louise.
Projeto escolar vira e-book e amplia alcance da educação financeira
Em Cascavel (PR), o estudante Bruno Komatsu Klipp transformou sua inquietação com a falta de conhecimento sobre finanças na criação do Economy For All. Finalista da 42ª edição da Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), ele desenvolveu um e-book gratuito e on-line que reúne conceitos de economia e investimentos de forma acessível, após perceber estigmas sobre o mercado financeiro: “Sempre ouvi falar da bolsa de valores de forma negativa e percebi que sabia pouco sobre investimentos. A partir daí, quis compartilhar esse conhecimento”, conta Bruno.
O projeto, iniciado na Mostra Brasileira de Inovação, Pesquisa Científica e Empreendedorismo (Mobipe), organizada pelo Passo Certo Bilingual School, foi fundamentado em uma pesquisa com estudantes do Ensino Médio. O levantamento mostrou que 73,9% consideravam a educação financeira escolar insuficiente e 56,5% sentiam-se inseguros para tomar decisões sobre dinheiro. A iniciativa propõe o tema como parte da formação cidadã, estimulando autonomia e responsabilidade e fortalecendo o equilíbrio e a consciência social das novas gerações.
Moeda fictícia transforma comportamento e engajamento escolar
Em Castro (PR), o Colégio Estadual Amanda Carneiro de Mello, em parceria com a Tom Educação, utiliza o projeto “Dinheirinho do Guarazinho” para ensinar finanças e aumentar o engajamento escolar por meio da moeda fictícia Guará. Distribuída semanalmente, a moeda premia a assiduidade: estudantes com presença entre 90% e 95% recebem cinco guarás, enquanto aqueles com frequência superior a 95,01% recebem dez guarás. O montante pode ser trocado na “Lojinha da Frequência” por itens como materiais escolares e jogos, que custam a partir de 20 guarás, incentivando o acúmulo consciente.
Em apenas três semanas, a assiduidade cresceu entre os mais de 100 alunos que participam ativamente do programa. “O modelo busca desenvolver não apenas o compromisso com a rotina escolar, mas também noções fundamentais de economia doméstica: planejamento, poupança, tomada de decisão e recompensa pelo esforço”, afirma o coordenador administrativo da escola, Alessandro Kremer, idealizador do projeto.
O programa é operado de forma colaborativa entre os setores administrativo e pedagógico da escola, que também se responsabilizam pelo controle, reposição e organização dos itens da loja. Além do impacto pedagógico, a iniciativa contribui para um ambiente que incorpora as finanças de forma prática no dia a dia dos alunos.





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