Com provas previstas para novembro, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026 já mobiliza estudantes em todo o país diante de mudanças no formato da avaliação. De acordo com o coordenador pedagógico do Ensino Médio da Escola Lourenço Castanho, Henrique Braga, uma das principais novidades é a ampliação dos blocos de questões organizados a partir de um único texto-base, os testlets, modelo já adotado em Linguagens na edição de 2025 e que será ampliado para outras áreas do conhecimento.

Ele comenta que as mudanças foram ressaltadas no Seminário “O Enem e o Sistema de Avaliação da Educação Básica”, realizado no Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e promovido por relevantes instituições dedicadas a avaliações em larga escala (ABAVE, OCDE, Cátedra Instituto Ayrton Senna IEA/USP, além do próprio INEP). “A expectativa é de que o Enem passe a valorizar mais, nas diferentes áreas, a compreensão global de um dado contexto. Não se trata mais de interpretar fragmentos de textos, voltados muitas vezes à contextualização de um conceito: espera-se que o contexto esteja em primeiro plano, exigindo mobilizar diferentes conceitos para compreendê-lo. Esse novo cenário reforça que o exame seja, na prática, uma avaliação de toda a Educação Básica, uma vez que as habilidades medidas são fruto de uma construção de longo prazo”, destaca.

Professores da Escola Lourenço Castanho avaliam que a mudança no formato tende a impactar de maneiras diferentes cada área do conhecimento, mas com um ponto em comum, a exigência de leitura mais aprofundada e capacidade de análise.

Na avaliação de Vânia Fonseca Longhi Macarrão, professora de Biologia do Ensino Médio, a área de Ciências da Natureza deve sentir de forma direta o impacto do novo formato. Ela explica que a prova deixa de premiar respostas automáticas e passa a exigir leitura cuidadosa de situações concretas. “A complexidade aumenta, mas não no cálculo, ela está na capacidade de analisar dados e conectar conceitos dentro de um problema real”, afirma. Em vez de questões isoladas, o estudante pode se deparar com um cenário único, como o uso de um dessalinizador em uma comunidade, que exige mobilizar diferentes conhecimentos ao mesmo tempo.

Segundo ela, os testlets tornam a interpretação uma etapa decisiva do processo. “A interpretação vira a chave de entrada. Sem entender o contexto, o aluno nem chega a saber qual conceito aplicar”, diz. A tendência, explica, é de um equilíbrio maior entre leitura e domínio teórico. Para se preparar, a orientação é mudar o foco do estudo. “Não basta saber fórmula, é preciso entender quando e por que usar”, ressalta. Isso inclui treinar leitura de gráficos, analisar dados e buscar referências como avaliações internacionais. “A prova trata o aluno como alguém que precisa usar ciência para resolver problemas reais”, resume.

Para Henrique Nogueira Magalhães, professor de Matemática do Ensino Médio, essa área segue exigindo cálculo. “O exame não é apenas interpretativo, mas também exige densidade teórica”, afirma. Ele destaca que o novo modelo reforça a combinação entre conteúdo e aplicação prática, aproximando a disciplina de situações cotidianas. Questões envolvendo porcentagem, probabilidade e matemática financeira tendem a ganhar ainda mais espaço, agora inseridas em contextos mais amplos.

Na prática, o desafio passa a ser ler melhor antes de calcular. “Sem uma boa leitura e filtragem das informações, o aluno fica mais suscetível a erros”, explica. Com blocos de questões interligadas, um equívoco inicial pode comprometer toda a sequência. Por isso, a recomendação é ampliar o repertório de estudo. “O estudante precisa deixar de ver as disciplinas de forma isolada e buscar conexões”, reforça. Além disso, ele sugere o contato com modelos como o PISA e o SAT, que têm caráter avaliativo e balizador da educação, papel que o Enem passa a assumir oficialmente.

Em Ciências Humanas, Leandro Martins, professor de Geografia e de Atualidades no Ensino Médio, vê uma ampliação das possibilidades de análise. Para ele, o novo formato reforça a relação entre repertório e pensamento crítico. “As duas coisas caminham juntas. Sem repertório, não há análise consistente”, afirma. Com textos mais amplos, a prova tende a explorar diferentes interfaces, da Geografia à Sociologia, a partir de um mesmo contexto.

Na prática, isso exige uma mudança de postura diante do texto. “Não é mais bater o olho no enunciado e procurar palavras-chave, mas mergulhar na leitura”, diz. O professor defende que o estudante se prepare para interpretar materiais mais densos e estabeleça conexões com a realidade. “Uma leitura mais lenta e atenta permite enfrentar várias questões sem precisar voltar ao texto”, explica. Para ele, o Enem pode, inclusive, formar leitores mais críticos. “É um convite para sair da superficialidade e construir um olhar mais articulado sobre o mundo”, finaliza.

Já na área de Linguagens, Marcella Abboud, professora de Interpretação e Produção de Texto do Ensino Médio, aponta uma mudança menos visível, mas profunda, a leitura deixa de ser fragmentada. “Diminui a leitura quantitativa e aumenta a qualitativa, com textos explorados em várias camadas”, afirma. Isso eleva o nível de exigência, já que o aluno precisa ir além da compreensão básica e avançar para inferências e análise de sentido.

Para a professora, o impacto é direto na forma como o estudante encara a prova. “Esse modelo diferencia melhor o aluno preparado do aluno sortudo”, diz. Ela destaca que textos deixam de ser apenas suporte e passam a ser centrais na resolução das questões. Como resposta, a preparação exige mudança de hábito. “É preciso desenvolver concentração e comportamento leitor”, enfatiza. Na prática, isso significa ler textos mais longos, reduzir a dispersão e sustentar o raciocínio do início ao fim. “Não dá mais para esquecer o primeiro parágrafo quando chega ao quinto”, finaliza.

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