Especialistas alertam que principal impacto não está apenas na tecnologia, mas na perda de tempo livre, espaços públicos e convivência entre crianças

A infância brasileira mudou. Diversos estudos mostram que o tempo nas ruas e as brincadeiras ao ar livre perderam espaço para telas, jogos on-line e ambientes fechados. Um levantamento divulgado em setembro de 2025 pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal em parceria com o Datafolha apontou, por exemplo, que crianças brasileiras de zero a dois anos passam duas horas por dia, em média, usando telas. 

De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, o ideal é que as crianças dessa idade não tenham nenhum contato com telas. Esse limite aumenta para uma hora por dia para crianças de dois a cinco anos e para entre uma e duas horas por dia na faixa etária dos seis aos dez anos.

Esses e outros dados confirmam que o debate sobre o brincar infantil vai além da nostalgia sobre uma infância “sem tecnologia”. “A questão central já não é saber se as crianças ainda brincam, mas compreender o que mudou nos espaços, nos tempos e nas relações que sustentam a infância”, afirma a gerente de marketing da Aprende Brasil Educação, Damila Bonato. 

Esse debate é fundamental diante do cenário de uso massivo de telas que, na prática, inviabiliza a convivência social. A mesma pesquisa também aponta que 78% das crianças brasileiras de zero a três anos estão expostas às telas todos os dias. O número é ainda mais alarmante para crianças entre quatro e seis anos: 94%. 

O tema volta ao centro das discussões durante a Semana Mundial do Brincar, mobilização internacional promovida no Brasil pela Aliança pela Infância e realizada anualmente em torno do Dia Mundial do Brincar, celebrado em 28 de maio. Em 2026, a campanha traz o tema “A potência dos encontros”, destacando a importância da convivência, dos vínculos e da reconstrução dos espaços coletivos da infância. 

A proposta também inspira ações pedagógicas em escolas brasileiras. Os colégios da Rede Positivo, por exemplo, desenvolvem atividades voltadas à escuta das crianças e das famílias, valorizando o brincar como linguagem essencial da infância. Entre as iniciativas está a construção de um “Mapa do Brincar”, que reúne memórias, experiências e culturas brincantes presentes na comunidade escolar.

Segundo a gerente pedagógica da Educação Infantil e Anos Iniciais dos colégios da Rede Positivo, Hannyni Mesquita, a proposta é “deslocar o foco de uma lógica de ensinar brincadeiras para uma ação pedagógica de escuta, documentação e valorização da infância”. O documento da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) evidencia as interações e brincadeiras como o eixo das práticas pedagógicas na Educação Infantil e o brincar como um dos seis direitos dessa fase.

Ao longo da semana, todos os colégios da Rede Positivo nas cidades de Curitiba, Cascavel, Florianópolis, Foz do Iguaçu, Joinville, Londrina e Ponta Grossa promovem brincadeiras tradicionais, atividades com elementos da natureza, jogos coletivos, interações entre crianças de diferentes idades e experiências inspiradas em brincadeiras de quintal e faz de conta. As ações também incluem a participação das famílias, que serão convidadas a compartilhar brincadeiras da própria infância e hábitos atuais das crianças fora da escola.

Crianças brincam menos na rua e mais nas telasBrincadeiras tradicionais como amarelinha, pega-pega, esconde-esconde e pular corda seguem presentes no imaginário coletivo, mas hoje parte significativa da infância acontece em ambientes digitais.

Roblox, Minecraft, TikTok e jogos online passaram a integrar o repertório infantil contemporâneo. Para Damila, o problema surge quando as experiências virtuais substituem completamente o brincar livre, as interações presenciais e a exploração concreta do ambiente. “O desenvolvimento neurológico das crianças depende, entre outras coisas, da interação com outras crianças, com adultos, com animais de diversos tipos. Imagine, por exemplo, uma família sentada à mesa. Esse momento é uma oportunidade única para construir laços afetivos, trocar experiências, falar sobre o dia a dia, sentimentos, possíveis dificuldades. Se a criança estiver mexendo no celular ou no tablet, essa oportunidade valiosa acaba comprometida”. 

Além disso, o neurocientista francês Michel Desmurget, autor de pesquisas sobre hiperexposição digital, alerta para possíveis impactos no sono, na atenção, na linguagem e no desempenho cognitivo quando as telas ocupam o lugar das interações sociais e das experiências presenciais, segundo seus estudos.

Infância perdeu autonomia nas cidadesSe antes as crianças circulavam com mais liberdade pelas ruas e vizinhanças, hoje a infância é marcada por supervisão constante. O medo da violência, o trânsito intenso e a insegurança reduziram a autonomia infantil nas cidades brasileiras. Essa discussão não é nova, mas se torna cada vez mais relevante diante do aumento do número de carros nas ruas, do planejamento urbano que prioriza automóveis e dos índices cada vez mais preocupantes de violência nas cidades. 

No livro “Morte e Vida das Grandes Cidades”, publicado nos anos 1960, Jane Jacobs fala sobre o “balé das calçadas”, essa dança constante de pessoas passando pelas vias públicas, comércios funcionando, adultos vivendo suas vidas e crianças brincando, e como ela ajuda a tornar esses espaços mais democráticos e adequados para todas as idades, mas, principalmente, para os pequenos. “As crianças da cidade precisam de uma boa quantidade de locais onde possam brincar e aprender. Precisam, entre outras coisas, de oportunidades para praticar todo tipo de esporte e exercitar a destreza física — e oportunidades mais acessíveis do que aquelas de que desfrutam na maior parte dos casos”, diz a autora. 

Hannyni concorda. Para ela, as consequências dessa mudança na relação dos moradores com as ruas vão além da simples mobilidade. “Experiências espontâneas de convivência, como negociar regras, lidar com conflitos, enfrentar frustrações e construir amizades são fundamentais para o desenvolvimento emocional”, afirma. Segundo a educadora, habilidades como empatia, cooperação e autorregulação emocional se desenvolvem justamente em interações reais, não mediadas exclusivamente por algoritmos ou interfaces digitais. “Uma criança aprende convivência convivendo”, completa.

Agenda cheia também reduz o tempo de brincarEspecialistas apontam ainda outro fenômeno contemporâneo: a infância hiperprodutiva. Além do tempo excessivo diante das telas, muitas crianças enfrentam rotinas intensas de atividades extracurriculares.

Com isso, sobra menos espaço para o chamado ócio criativo, considerado essencial para o desenvolvimento da imaginação e da autonomia infantil. Damila lembra que a criança constrói conhecimento por meio da ação livre sobre o ambiente. “Quando tudo chega pronto, brinquedos altamente estruturados, roteiros fechados, vídeos contínuos e estímulos permanentes, diminui a necessidade de invenção. Brincar exige tempo livre. É nesse espaço que a criança cria histórias, estabelece regras, experimenta autonomia e desenvolve criatividade”, reforça. O acesso ao brincar seguro, porém, depende também de condições urbanas e sociais, com cada família buscando o equilíbrio na rotina de acordo com a própria realidade.

Escola tenta recuperar o tempo da infânciaDiante da redução dos espaços coletivos de brincar, a escola passou a ocupar um papel ainda mais importante na experiência infantil. A proposta da Semana Mundial do Brincar busca justamente ampliar esse olhar.

Segundo Hannyni, a iniciativa pretende reconhecer “do que as crianças brincam hoje”, “onde e com quem brincam” e “quais tempos e espaços favorecem o brincar”. “A ideia é construir ambientes de convivência, cooperação e criação coletiva, valorizando tanto as memórias familiares quanto os repertórios culturais contemporâneos”, conta.

“O brincar continua sendo uma das experiências mais completas da infância. É nele que a criança negocia, cria, experimenta, coopera e constrói identidade”, afirma.

O que é a Semana Mundial do Brincar?A Semana Mundial do Brincar é uma mobilização internacional voltada à valorização do brincar como direito fundamental da infância. No Brasil, a iniciativa é organizada pela Aliança pela Infância e acontece anualmente em torno do Dia Mundial do Brincar, celebrado em 28 de maio.

Em 2026, o tema nacional será “A potência dos encontros”, propondo reflexões sobre convivência, saúde emocional infantil, tempo livre, espaços públicos e o direito ao brincar.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Tendência