Dia do Cliente: 29,3% da renda das famílias já está comprometida com dívidas antes das compras de setembro
Especialista da UniCesumar analisa o impacto da inflação e do endividamento, alertando para a necessidade de maior controle de risco e revisão de preços no varejo.
A proximidade do Dia do Cliente encontra o consumidor brasileiro com margem orçamentária reduzida. Segundo dados do Banco Central do Brasil, o comprometimento da renda com o pagamento de dívidas atingiu 29,3% em março de 2026, próximo do patamar recorde de 29,6%. Em paralelo, a taxa de endividamento geral das famílias alcança 49,8%, enquanto o número de inadimplentes no país chegou a 83,9 milhões de pessoas em julho do mesmo ano, segundo registros da Serasa.
A combinação entre a taxa básica de juros (Selic) em 14% ao ano e o acúmulo da inflação em 12 meses, registrado em 4,44%, reduziu o poder de compra, afetando a demanda por bens e serviços, com impacto contínuo nas classes C e D e desaceleração do consumo de bens duráveis na classe média.
“O impacto direto dessa conjuntura é que uma fatia expressiva do orçamento familiar já nasce comprometida com o serviço da dívida. Ao subtrair o custo com juros e parcelas anteriores, resta uma margem financeira reduzida para despesas essenciais e compras do dia a dia, o que retrai o consumo e desacelera a atividade econômica”, analisa Daniela Monteiro, professora de Economia da EAD UniCesumar.
Reorganização do consumo e expansão de novas linhas de crédito
Para manter o volume de compras diante da renda retida, a utilização de alternativas como o Pix parcelado e o carnê digital registrou expansão no varejo. As ferramentas atuam como substitutas para consumidores sem limite no cartão de crédito tradicional, fracionando o custo de aquisição. De acordo com o Global Payments Report, essa modalidade já responde por 42% do volume transacionado no e-commerce no país, enquanto levantamentos da CNDL e do Varejo Finance Report indicam que o fortalecimento do crediário próprio digital atua diretamente como alternativa para consumidores sem limite no cartão tradicional.
“Essas modalidades dão flexibilidade operacional ao orçamento doméstico e mantêm a circulação de vendas, mas transferem a renda futura do consumidor para o pagamento de compromissos anteriores. O acúmulo de pequenas parcelas reduz a percepção do gasto total acumulado, o que demanda maior controle orçamentário para evitar o avanço da inadimplência”, afirma Daniela Monteiro.
Adequação de preços e gestão de risco no varejo
O comportamento do consumidor para o Dia do Cliente indica a priorização de compras funcionais e itens de necessidade aproveitando descontos promocionais, em detrimento do consumo por impulso. Para responder a este perfil, as empresas têm adaptado a estrutura de precificação por meio da introdução de faixas de preço diversificadas e embalagens redimensionadas, da concessão de margem de desconto para pagamentos à vista e da estruturação de parcelamentos integrados a análises automáticas de crédito.
“O resultado das operações no varejo depende do equilíbrio entre a atração do cliente e a capacidade de recebimento. Ampliar os prazos sem a devida checagem de risco pode elevar o faturamento nominal e, simultaneamente, prejudicar o fluxo de caixa caso a taxa de inadimplência aumente”, conclui a professora da UniCesumar.





Deixe um comentário