Kits de robótica, blocos de programação e circuitos eletrônicos chegam às lojas com a promessa de estimular o raciocínio
Com a chegada do Dia das Crianças, em 12 de outubro, os brinquedos ligados a ciência, tecnologia, engenharia e matemática ganham espaço nas vitrines. Conhecidos pela sigla STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics = Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), kits de robótica, blocos de programação e circuitos eletrônicos prometem desenvolver raciocínio lógico, criatividade e habilidades digitais.
A indústria aposta na categoria: os brinquedos educativos estão entre os destaques de uma data que deve ter alta de 5% a 9% nas vendas, segundo projeção da ABRINQ. Mas todo brinquedo tecnológico é educativo? Para especialistas da UNIASSELVI, a resposta depende menos dos recursos digitais e mais do espaço que o presente abre para a criança experimentar, errar e criar.
“Antes de avaliar um brinquedo STEM, é importante entender que a sigla não significa necessariamente tecnologia ou uso de telas. Um brinquedo STEM não precisa ser eletrônico ou sofisticado. O mais importante é que ofereça oportunidades para a criança explorar, criar, investigar, testar ideias e resolver problemas”, afirma Ana Clarisse Alencar Barbosa, doutora em Educação e coordenadora de cursos de licenciatura da UNIASSELVI.
Segundo a pedagoga, alguns produtos só pedem que a criança repita comandos, escolha personagens ou siga etapas prontas, o que deixa pouco espaço para criação. Outros permitem fazer escolhas, testar, errar e tentar de novo. São esses que garantem uma experiência de aprendizado.
Autonomia pesa mais que tecnologia
Ana Carolina Gadotti Aurélio, coordenadora dos cursos de Licenciatura em Informática e Jogos Digitais da UNIASSELVI, propõe um teste simples aos pais. “Depois que a criança aprendeu a usar o brinquedo, ela consegue criar algo que o fabricante não ensinou? Se consegue, temos um importante indício de autoria. Um brinquedo pode ser muito interativo e, ainda assim, oferecer uma experiência bastante passiva. O que faz a diferença é o espaço que ele dá para a criança pensar, experimentar, criar e encontrar suas próprias soluções”, explica.
A especialista reconhece que os kits tecnológicos podem render boas experiências, desde que deixem a criança criar e resolver problemas. Mas faz um alerta. “É importante não confundir brinquedo tecnológico com brinquedo melhor. Alguns têm custo mais elevado e podem depender de aparelhos, aplicativos ou conexão com a internet. Também existem opções muito fechadas, que deixam pouco espaço para a criação da criança.”
Materiais simples também ensinam
Desenvolver essas habilidades não exige equipamentos caros. “Uma caixa de papelão, blocos, tampinhas, massinha, água ou areia também podem estimular criatividade, planejamento, raciocínio, contagem, formas, medidas e resolução de problemas. O que importa não é apenas o brinquedo em si, mas o que a criança é convidada a fazer com ele”, destaca Ana Clarisse.
A pedagoga lembra que até noções de computação podem ser trabalhadas sem computador. Desenhos, histórias, percursos e maquetes podem cumprir esse papel.
Adulto deve mediar, sem transformar a brincadeira em aula
A idade indicada na embalagem ajuda, mas não deve ser o único critério. Cada criança tem seu ritmo. Uma pergunta de um adulto ou a troca com um colega pode fazer a diferença diante de um desafio. “Um bom desafio não precisa ser fácil. Ele precisa ser possível de ser enfrentado, mas também provocar curiosidade, descoberta, tentativa e novas possibilidades”, afirma Ana Carolina.
Para Ana Clarisse, o papel do adulto é acompanhar sem cobrar. “É importante observar, escutar e deixar a criança experimentar. Quando algo não funciona, em vez de dar a resposta, podemos fazer perguntas e incentivá-la a pensar sobre o que aconteceu. Assim, o erro deixa de ser visto como fracasso e passa a fazer parte do próprio processo de aprendizagem”, orienta.
Segurança e conexão vêm antes da compra
Nos modelos conectados, a primeira pergunta é o que a internet acrescenta. “Se a conexão permite que a criança explore mais, crie ou resolva problemas, ela pode fazer sentido. Mas, se o brinquedo funciona da mesma forma sem internet, é válido questionar se essa conexão é realmente necessária”, avalia Ana Carolina.
Ana Clarisse acrescenta que os pais precisam saber quais dados o produto coleta. Contas parentais, filtros e ajustes de privacidade ajudam, mas não substituem a conversa com a criança. Na loja, a recomendação é conferir a faixa etária, o selo de conformidade do Inmetro e a presença de peças pequenas. Também vale checar se as instruções estão em português e se o kit exige gastos extras, como aplicativo, assinatura, pilhas ou internet.
As promessas da embalagem merecem cautela. “Um brinquedo pode, sim, criar boas oportunidades de aprendizagem, mas não faz isso sozinho e não produzirá o mesmo resultado para todas as crianças”, alerta Ana Clarisse.
Para Ana Carolina, o critério final é simples. “No fim, a escolha deve considerar as possibilidades que o brinquedo oferece para que a criança explore, crie, experimente e aprenda.”





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